Névoa (1902)

O poema Névoa (1902), de Amadeu Amaral, é um ótimo exemplo do simbolismo na literatura brasileira. Escrito numa época em que a poesia estava mudando, ele reflete bem essa transição entre o formalismo do parnasianismo e o jeito mais sensorial e subjetivo do simbolismo. O poema fala sobre a passagem do tempo e o mistério da vida, usando imagens que parecem escorregar das mãos do leitor, assim como a própria névoa.
Desde o título, já dá para perceber que a obra trabalha com a ideia de incerteza e efemeridade. A névoa, um fenômeno que esconde e revela ao mesmo tempo, vira metáfora para aquilo que não conseguimos entender completamente na vida. Amaral cria uma poesia que não descreve tudo de forma direta, mas sim sugere, convida o leitor a sentir e interpretar por conta própria. Essa escolha faz com que o poema tenha um tom quase onírico, como se estivesse sempre entre o real e o imaginário.
Um dos pontos fortes da obra é sua musicalidade. Amaral usa repetições de sons (aliterações) e um ritmo fluido que fazem a leitura soar quase como uma canção. Isso reforça a sensação de que as palavras estão se desfazendo no ar, acompanhando o tema central da névoa. Além disso, ele combina diferentes sentidos (como visão, tato e audição) por meio da sinestesia, criando uma experiência sensorial rica e envolvente.
Outro aspecto interessante é o tom melancólico da poesia. A névoa não só esconde as coisas, mas também reforça a ideia de que a vida é passageira e cheia de incertezas. Ao invés de tentar explicar tudo de forma lógica e racional, como faziam os poetas parnasianos, Amaral prefere deixar espaços vazios, permitindo que o leitor complete o significado. Esse jeito de escrever é uma das marcas do simbolismo, que valoriza mais a atmosfera do que a clareza absoluta.
Por outro lado, essa mesma característica pode tornar a leitura um pouco difícil para quem está acostumado com poesias mais diretas. Como não há uma história linear ou um significado evidente, algumas pessoas podem achar a obra um tanto abstrata. Mas essa escolha faz parte da proposta do simbolismo: o poema não quer dar respostas prontas, e sim provocar sensações e reflexões.
No final das contas, Névoa (1902) é um ótimo exemplo de como a poesia pode ser ao mesmo tempo bela e misteriosa. Amaral cria um universo cheio de sombras e reflexos, onde tudo parece estar em movimento e nada é completamente sólido. Para quem gosta de uma poesia que não entrega tudo de bandeja, mas que convida a sentir e interpretar, essa é uma leitura que vale a pena.